Comunicado aberto

Em 14/03/2020, nós do Círculo de Estudos da Ideia e da Ideologia divulgamos, através de uma carta aberta, a sensação, mais ou menos unânime em nosso interior, da existência de um momento crítico de nosso coletivo, no melhor sentido da palavra. Após quase 10 anos de experiências, o diagnóstico era que a forma concreta tomada pelo coletivo em muito se diferenciava de seu projeto original, que, se orientou o coletivo em sua perspectiva e princípios organizacionais, nunca se sobrepôs ao próprio princípio da experimentação e criação coletiva. 

 

Ou seja, não se tratava de uma crise diante do não cumprimento dos ditados de um projeto original, mas antes que a forma organizacional que o coletivo adotava, resultado do choque de seu projeto original com os próprios acontecimentos, interiores e exteriores, convivências pessoais e coletivas e tentativas de organização, não permitia de fato a experimentação e o pensamento daquilo a que se propunha. As inúmeras criações paralelas que circundavam o coletivo não encontravam um espaço comum onde pudessem ser refletidas suas experiências e resultados, suas demandas e proposições. Se o igualitarismo era, como dito em nossa carta aberta, uma força centrípeta que deveria moldar o interior do coletivo a partir do que está fora de nós, a ausência de um espaço de coletivização e visibilização das diferenças tornava inócuo o princípio igualitário, de sorte que as diferenças se proliferaram em indiferença ao próprio espaço organizacional. Assim, o déficit organizacional não estava absolutamente no surgimento das diferenças, mas no fato de que tais diferenças escapavam ao pensamento e à reflexão do coletivo para que a igualdade pudesse ser experimentada em seu processo, e não em sua finalidade. 

 

E se o pensamento acerca das tensões entre as igualdades e as diferenças sempre foi tanto um objeto de estudo político de nosso coletivo como uma expectativa de experimentação concreta que levasse à contribuições para o pensamento e ação coletivos como um todo, nossa forma não mais satisfazia nossas aspirações. 

 

Diante deste cenário, e após uma longa retrospectiva feita pela célula carioca da história do CEII, traçada em paralelo com os próprios acontecimentos políticos e sociais mais gerais, compreendemos então que era preciso reconhecer a saturação de nossas experiências e formas organizacionais então existentes. Reconhecimento este que nos demonstrou: os aprendizados e experiências desse período estavam dispostos sobre um certo acabamento, encontravam-se encerradas na próprias formas que haviam criado. Mas esse encerramento de forma alguma demandava uma desistência. Pelo contrário, a este encerramento uma nova forma organizacional poderia dar continuidade sem que o fato de que decidir pela continuação quisesse dizer que permanecemos os mesmos. Reconhecer, portanto, que algo de inevitavelmente diferente havia surgido no próprio interior de nossas experiências permitia que a continuidade fosse feita sem que deixássemos de vislumbrar a ocorrência, que sempre aguardamos mas para a qual nunca estamos verdadeiramente prontos, de uma novidade.

 

Assim, o Círculo de Estudos da Ideia e da Ideologia vem informar que em breve trará muitas novidades. Um novo nome, um novo formato, uma nova proposta para pensar o político e a militância, e também um convite a todos aqueles que permanecem desejosos de enfrentar os problemas da organização e do comum.

 

02/03/2021