Carta aberta sobre o Círculo de Estudos da Ideia e da Ideologia

 

"O Círculo de Estudos da Idéia e da Ideologia não existe.

 Inscrever seu nome no mundo é tarefa daqueles 

cujo desejo se engaja com a sua inexistência".

 

Projeto original do Círculo, 2012


 

Em 2020 o CEII completa 9 anos de existência. Talvez fosse mais correto dizer que há 9 anos  existem pessoas que se engajam com sua inexistência. Ao longo desses anos, centenas de pessoas passaram pelo coletivo, e o próprio coletivo passou por inúmeras transformações: já fomos curso de formação militante, grupo terapêutico, grupo de estudos, fórum de esquerdas, incubadora de projetos e até mesmo uma proto-corrente partidária. A plasticidade do projeto do Círculo, que se deixou afetar pelas diferentes conjunturas ao longo da última década, pelos diferentes perfis de seus membros, pelas cidades e países que conectamos, e pelas investigações teóricas que fizemos, é certamente um dos maiores méritos da nossa trajetória — na contramão da lógica das cisões e da curta meia-vida de grande parte dos coletivos políticos, o CEII conseguiu fazer dos seus impasses uma razão pra se reinventar algumas vezes. 

Mas essa virtude não é absoluta e, hoje, nós precisamos nos colocar a seguinte questão: como distinguir entre transformações que aumentam nossa capacidade de efetivamente colocar à prova a hipótese do igualitarismo e aquelas mudanças que, adequando o coletivo às restrições de seus membros, esvaziam os traços distintivos da organização? Esse problema precisa ser confrontado porque hoje circula entre nós o diagnóstico de que talvez o Círculo tenha saturado a sua forma e tenha se tornado incapaz de preservar minimamente sua atualidade: ao contrário de outros momentos, hoje são poucas as pessoas no coletivo que sentem que nossa forma de atuar as demove de seu lugar social ordinário em nome de uma outra experiência coletiva. 

Isso não significa que não estejamos envolvidos ou ativos. Por critérios objetivos, comparando com outras organizações, continuamos atuantes, produzindo revistas, sites, debates, colóquios, etc. É pelo critério subjetivo — isto é, do ponto de vista da aposta que sempre fizemos no potencial da igualdade de formar nossas práticas e ideias — que a situação nos parece crítica: hoje em dia, nossos projetos são levados de forma autônoma pelos sub-grupos do coletivo, sem que o espaço comum do coletivo, nosso fórum mais heterogêneo, contribua para transformar essas atividades. Não se trata, no entanto, de restituir essa dinâmica como se fosse uma regra, mas sim de constatar que não é mais interessante ou mesmo eficaz mobilizar essa aposta - o que nos obriga a questionar se nossa forma de fazer as coisas não se tornou obsoleta ou atrasada, dado que não fazemos mais uso dela.

À luz desse novo momento, em que é preciso questionar se uma nova transformação seria suficiente para revigorar nossa prática, a célula carioca do Círculo decidiu fazer um chamado — tanto para o resto do coletivo quanto para antigos membros e simpatizantes do CEII — para que façamos um balanço da história da organização, um esforço de recapitulação que não evite a possível conclusão de que estamos chegando ao fim do nosso experimento. Desde sua fundação, o Círculo se orientou pela hipótese de que o igualitarismo é uma força centrípeta, que molda o interior do coletivo a partir do que está fora de nós. É por isso que, num momento decisivo como esse, nossa primeira preocupação não é narrar para nós mesmos a nossa história, mas produzir uma documentação que possa ser útil para outros coletivos e pesquisadores — um resumo do que aprendemos, dos nossos fracassos e da maneira como experimentamos os efeitos da conjuntura movediça dos últimos dez anos.

Ao longo do primeiro semestre deste ano, estaremos retomando nosso antigo formato de trabalho — reuniões semanais, com apresentações teóricas, gravadas e disponibilizadas publicamente — numa tentativa não de nos perguntar "o que fazer?", mas de investigar "o que fizemos?". Tentaremos reconstruir as principais escansões na nossa trajetória, justapondo a história do país, a história do coletivo e os avanços teóricos que foram se sedimentando ao longo do nosso percurso. Abriremos o espaço para convidados interrogarem nossas pretensões, assim como faremos uso do nosso extenso arquivo de anotações, gravações e documentos, para que esse esforço não se reduza a uma racionalização vazia. Nosso objetivo final é disponibilizar abertamente tanto um registro audiovisual quanto uma coletânea de pequenos textos que possam contribuir para o processo de renovação de outras organizações políticas.

É preciso dizer: é impossível antecipar se o resultado final desse balanço coletivo será o encerramento das atividades do coletivo como um todo, se representará o fim da célula carioca do Círculo, ou apenas o fim de uma fase do CEII. A constatação de que algo terminou pode servir a muitos fins diferentes, e isso só vai se cristalizar a medida em que realizarmos essa investigação. No entanto, é verdade também que, de acordo com o programa atualmente vigente no coletivo, ninguém tem o poder de extingui-lo:

 

"20. Nem mesmo a decisão unânime de todos os membros do coletivo pode dissolver o CEII, que continuará existindo caso quaisquer outras pessoas sigam as regras aqui apresentadas"

 

Que o registro do que realizamos até aqui possa servir então a qualquer um que, posteriormente, se decida por retomar o Círculo — mesmo se esses "quaisquer" sejamos nós.

Caso você se interesse em participar desse processo, entre em contato com a gente pelo email contato@ideiaeideologia.com ou pela nossa página no facebook para informações sobre horário e local das reuniões.


 

Com carinho,

 

Célula do Rio de Janeiro 

do Círculo de Estudos da Ideia e da Ideologia