Ciência e a Hipótese Comunista

UFF: 13/7, das 10h às 19.30h

Playlist com apresentações:

Do socialismo científico ao comunismo luxuriante totalmente automatizado, foram e são (e serão?) múltiplas as relações entre a(s) ciência(s) e a hipótese comunista. Essas relações envolvem tanto questões teóricas quanto questões práticas -- e também, como é preciso, o limiar nem sempre nítido entre prática e teórica.

As (chamadas) ciências sociais e, mesmo, as ciências (ditas) humanas têm seu próprio surgimento marcado por essa relação. Com efeito, ao investigar as relações históricas, sociais, políticas, econômicas e psíquicas que constituem o humano, essas ciências dificilmente poderiam fugir ao problema da conservação ou transformação das desigualdades entre os humanos, de sua natureza, necessidade e estrutura, e das condições e possibilidades da liberdade e da igualdade -- igualdade que está indelevelmente ligada à hipótese comunista. E sabemos que, do ponto de visto histórico, a ascensão de tais ciências se deu ao menos de modo paralelo às lutas do proletariado por condições de vida melhores, isto é, mais iguais e livres.

Nesse sentido, as ciências que então se constituiam não só se debruçaram sobre as transformações com as quais o capital estabelecia a sociedade burguesa e as transformações que os trabalhadores já reivindicavam no estabelecido nessa sociedade, mas também serviram de arma política na mão tanto de burgueses quanto proletários. Se, por um lado, a economia política liberal e neoliberal procura mostrar que as leis da sociedade burguesa são as leis naturais que regulam a produção da sociedade humana enquanto tal, a defesa do caráter científico d(e um certo)o socialismo testemunha a tentativa de pensar a hipótese comunista não como uma utopia saída da cabeça de meia dúzia de idealistas, "um ideal para a qual a realidade deve se dirigir", mas sim "o movimento real que supera o atual estado de coisas". A bem dizer, a ciência servirá não só para investigar o "atual estado de coisas" tentando discernir nele o germe da sua superação, mas também distinguirá estados de coisas atuais ou, em todo caso, realmente existentes nos quais de algum modo a hipótese da igualdade se verificou, na figura do "comunismo primitivo". Em tempos de crise ambiental e crítica (ou elogio aceleracionista) aos avanços tecnológicos sem freio, nos quais parecer ser mais fácil imaginar o fim do mundo do que o fim do capitalismo, essa figura tem voltado com força ao centro de muitos debates sobre o futuro.

A referência à crise ambiental e aos avanços tecnológicos nos leva, por sinal, às matemáticas e às ciências da natureza. Com efeito, elas não servem apenas para nos dar elementos para diagnósticos futuros relacionados com a hipótese comunista. Como se sabe, elas foram (e são?) modelos (a serem repetidos ou negados) para a constituição das próprias ciências sociais e humanas que surgiram concomitantemente à luta por igualdade e liberdade -- bem como, de resto, à filosofia. São célebres a caracterização "biológica" marxiana da mercadoria como "célula" do modo de produção capitalista, a comparação entre as investigações de Marx e de Darwin, os vários desenvolvimentos da teoria social que tiveram como paradigma a física e a biologia, bem como as não poucas metáforas químicas utilizadas n' O Capital, para não falar do interesse de Marx na matemática. Matemática que não por acaso foi "descoberta" como a ontologia pelas mãos do comunista Badiou, para ficar em apenas um exemplo contemporâneo.

O século XX é testemunha de que, nas múltiplas relações entre hipótese comunista e ciência, esta última não pôde permanecer sempre como campo autônomo e meio neutro, indiferente às suas apropriações políticas. De polo da verdade que permite fazer a consciência escapar à ideologia, a ciência passou a ser vista, na pós-modernidade, como mais uma narrativa, instrumento de poder de uma cultura hegemônica. Entre um concepção e outra, as tentativas de organizar um socialismo que realmente existisse não apenas se engajaram no projeto autônomo em relação às política, ao projeto comum que em alguma medida sempre constituiu as ciências, mas por vezes procurou pensar uma ciência que fosse ela mesma proletária, revolucionária, comunista.

Como estamos hoje diante desse quadro? A reivindicação da hipótese comunista ainda passa por uma apropriação das ciências humanas e naturais? Essa apropriação deve respeitar tais ciências como campos autônomos, ainda que afetadas pelo contexto político, ou tomá-las também como intrinsecamente políticas? Nesse sentido, ela seria mais uma narrativa entre outras do mercado contemporâneo de narrativas? De um jeito ou de outro, podemos aproveitar dela apenas as consequências tecnológicas, como meios para concretizar/verificar a hipótese comunista e/ou pensar o futuro, ou interessa, para esta hipótese, estarmos atentos (também) aos avanços da teoria pura?

PROGRAMAÇÃO:
 

10h/ Abertura


10.30h/ MESA 1: Capitalismo e Tecnologia
MEDIADOR: Victor Pimentel


Edemílson Paraná (UnB): "Crédito, produção e mudança estrutural: por que os comunistas devem entender de finanças e tecnologia"


Joelton Nascimento (CEII-MT) e Silvia Ramos Bezerra (CEII-MT): "A Passagem"


Pedro Enrique Brandão Marques (Força Motriz/ UFRJ): "A ciência e tecnologia como campo de disputa"


Anna Savistkaia (CEII-RS), Rodrigo Gonsalves (CEII-SP) e Daniela Mutchnik (Designer de Interiores): "Ex-Machina: Uma breve crítica ao Aceleracionismo de esquerda"


12.30h/ PALESTRA: Tatiana Roque (UFRJ): Em busca do tempo roubado: trabalho e cálculo diferencial em Marx
MEDIADOR: Adriano Lourenço


Intervalo (14h - 15h)
 

15h/ MESA 2: Política e Natureza
MEDIADOR: Daniel Alves


Daniel Cunha (University of Binghamton): "A trajetória do “Antropoceno”: ciência, “natureza” e emancipação"
 

Victor Pimentel (CEII-RJ/UFRJ) , Clara Ramos, João Mello e Yasmin Turini (UFRJ): "Seguir cientistas e engenheiros sociedade afora pode nos levar para onde?"


Lucas Hippólito (UFF): "Interação entre as diferentes ciências da natureza e ciências sociais no século XIX"


Henrique Rondinelli (UFRJ): "Visão sinóptica e estereoscópica: duas concepções da filosofia e da ciência no discurso"
 

17h/ MESA 3: Ciência e Imaginação Política
MEDIADOR: Eduardo Urzúa
 

Victor Marques (UFABC): "O fragmento das máquinas e o comunismo luxuriante totalmente automatizado"
 

J-P Caron (CEII-RJ/ UFRJ): "Assumindo o controle dos meios de produção semântica: Sellars, Brassier e contrafactuais"


Mayana Redin (UFRJ): "O Calcanhar de Komarov"

 

Phillipe Campos (CEII-RJ): "Depois de Star Trek - a imaginação colonizada pelo Capital"

INFORMAÇÕES:

DIA 13/7, UFF - CAMPUS GRAGOATÁ

AUDITÓRIO DO BLOCO P

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