PUC-Rio
Auditório Padre Anchieta
30.10.2017

É curioso que, materialismo histórico a parte, Marx nunca tenha negado a capacidade da tragédia grega de permanecer nossa contemporânea, ainda que as condições sociais de sua produção sejam tão distantes do nosso mundo capitalista. De alguma forma, algo na arte nos olha de um lugar que permanece presente mesmo muito tempo depois. 

Existem, portanto, duas formas de retornar à Revolução Russa, que completa cem anos em 2017: podemos nos esforçar para pensar historicamente, retraçando o percurso que liga o nosso mundo àquele, ou podemos nos submeter a esse olhar, ele mesmo histórico, que insiste em se dirigir à nós desde 1917. O colóquio "Arte e a Hipótese Comunista", o quarto organizado pelo Círculo de Estudos da Ideia e da Ideologia, sempre em parceria com diferentes universidades, é uma escolha por essa segunda via.

Mas porque pensar a conjunção das artes com a "Hipótese Comunista" e não com a "Revolução de Outubro"? O filósofo franco-marroquino Alain Badiou defende que é preciso distinguir entre a "hipótese" comunista - a afirmação de que a igualdade social é possível - das suas diversas encarnações: as diferentes "ideias" tecidas a partir das determinações particulares de uma dada situação histórica. O "socialismo utópico" foi uma ideia, o "socialismo científico", outra - e a própria tradição republicana não deixa de ter sido a encarnação de uma hipótese a respeito da igualdade. Badiou distingue, por fim, os "experimentos" que colocaram essas diferentes ideias à dura prova do real, levando à fracassos que por sua vez revelam a distância entre a hipótese e as ideias. Pensar a arte não apenas em sua relação histórica com a Revolução de 1917, mas a partir da própria hipótese da igualdade significa afirmar que a arte é capaz de nos ajudar a pensar essa complexa amarração entre a pura possibilidade de outro mundo, sua afirmação historicamente situada e seus fracassos e limites - é justamente reconhecer a capacidade da arte de se estranhar do seu tempo.

A história da política revolucionária moderna sempre esteve ligada à história das revoluções formais nas artes. Críticos como T.J. Clark sugerem até mesmo que a história da dissolução da representação na pintura é incompreensível se separada da história da crise da representação política, cujo momento emblemático seria a Revolução Francesa. As vanguardas políticas e artísticas, na virada do século vinte, também interpretavam umas as outras, às vezes aparecendo como duas expressões de um mesmo desejo de futuro, às vezes como duas concepções antitéticas da temporalidade. Mais do que a história de uma articulação, a história do binômio “arte e política” é feita de encontros: da mais extrema autonomia à quase completa identificação, arte e política não cessam de se tocar, de transformar uma a outra de maneiras irreversíveis.

 

Investigar o encontro entre arte e a hipótese comunista é, portanto, submeter ambos os campos tanto a um passado de invenções e mediações mutáveis, quanto a surpresas e laços ainda por se estabelecer. Nosso interesse aqui é tanto questionar o que se torna pensável na arte, quando afirmamos, a partir da hipótese do comum, que a igualdade é possível, quanto avaliar que caminhos a experiência artística pode abrir para nossa compreensão tanto do passado quanto do futuro de uma política orientada pela igualdade.

A quarta edição do colóquio é realizada pelo CEII e pelo Grupo de Pesquisa Arte, Política e Autonomia, em parceria com o Programa de Pós-Graduação em História Social da Cultura, do departamento de História, e o departamento de Filosofia, na PUC-Rio.